2.7.10

Com o quebranto do dia e as chagas do tempo, tento mais uma vez afrontar-nos. Eu queria mais do que um jorro de sangue, queria mais do que um flato momentâneo. Queria um tumulto colossal, uma peleja ensanguentada, uma avenida cavernosa, por onde secamos, por onde vivemos, por onde vociferamos, por onde ceifamos. Tinha agora o desejo de te degolar, de te bravatear com uma faca fincada ao pescoço, fazendo com que me deprecasses remissão. Nesses segundos de timbre, moraria só eu. Estaria só eu, fitando-me no reflexo e dilatando o meu egotismo. Aí, eu enamorava-me comigo mesma, seduzia-me, beijava-me, e fazia tudo aquilo que foste inábil de fazer.

27.6.10


Não, ainda não me saiu da cabeça.





25.6.10



E deambulando pelo meio dos seus pensamentos, reminiscências e recordações, Mariana tropeçou na Wanda Stuart, e deliberou partilhar connosco o seu flashback. Tudo provocado pelo videoclip da “California Gurls”. Não tenho mai nada a dizer.

Gritantemente perturbador, uma visita ao mundo obscuro de Lars Von Trier.

22.6.10


I think you prefer when the world "together" means not "a million," but just two.
Na cadeira de baloiço estava ele sentado procurando no meio dos seus escritos o motivo do nosso âmago. Voltou-se para mim, beijou-me na fronte, compôs o meu cabelo, pegou aleatoriamente num jaqué, e saiu porta fora. E eu só me indagava, só me triturava, só esmurrava com a cabeça na parede. Fui libando o briol que compramos e não bebemos, pois o oco que existia entre nós não nos facultava partilhar o que quer que fosse. Jornadeei fazendo gemer a madeira, e compelia os pés pontapeando todos os pregos soltos. Estava frio, um frio sinistro e não havia nada que o revogasse. Sentei-me junto à varanda, esperando vê-lo passar, com o seu ar majestoso, meio calamitoso, mas ainda assim com um charme cobiçável. Lembrei-me de todas as vezes que o meu peito bramiu, todas as vezes em que o meu corpo brotou desejo, todas as vezes em que me abordaste, enfim, todas as coisas que colaboraram para o meu desfecho. E ainda assim, agoniava ter-te, possuir-te, trajar-te. Acima de tudo, coabitar-te. Saí de casa. Saí para que, caso regresses, não te defrontares comigo debelada, devastada, torcida, ébria. Abreviando, quero estar sobre ti, porque ostentosamente, és um lascado, e eu vergo-me por tudo e por nada.

21.6.10

XXXING

"No meio de tantos corpos, frios, Ela passou a correr,
Por momentos só se ouviu os seus pés,
Leves, mas rápidos a tocar na matéria, corria.
Aquele movimento prendeu a atenção de todas aquelas almas,
Juntas numa rua escura, rodeadas de fumo de cigarro e alcóol,
Com conversas sobre amor,
Onde esse amor era discretamente trocado por sexo e tesão.
Todo este negro ritual foi interrompido pelos seus passos,
Corria de forma perfeita,
Como se tivesse passado uma vida a treinar para aquele momento,
Por segundos o silêncio possuiu tudo,
E era fácil ouvir o respirar dela passando entre todos,
Como se a cidade se tivesse calado para ouvir loucamente o seu corpo,
Em velocidade, de saia preta e baton verde...
Ninguem sabia se era a pressa de ir ou partir,
Ninguem sabia se era a pressa de chegar ou deixar,
Eu sabia que cada leve movimento que ela tinha, me fazia queres mais.
Uma nódoa negra, do tamanho de um palmo,
Via-se facilmente do lado de dentro da coxa,
Quando ao correr,
Ela abria as pernas, isto captava a minha atenção.
Alguns fios de cabelo presos na alça do sutiãn,
Davam aquele decote ainda mais sedução,
E com aquele corpete brilhante como metal,
Era como se ela deixa-se um rasto de luz ao movimentar-se,
Como se o seu peito fosse néon, ou os seus lábios brilhassem no escuro.
E Eu,
Conseguia imaginar, na minha cabeça apenas,
Aquelas mãos cobertas de anéis, a afastarem a minha cabeça,
Enquanto lhe mordia a perna, ainda com os collans vestidos,
Num quarto preto, com um pequeno candeeiro de cristal.
Com uma pequena televisão ligada, no canal 0, a dar ‘chuva’.
Ela pedirme-ia para por a toca um vinyl vermelho que estava no chão,
Eu partilo-ia à sua frente enquanto lhe mordia o lábio,
Como se lhe disse-se: não quero ouvir musica,
Quero ouvir novamente o teu respirar,
Desta vez por razões diferentes.
Imaginava eu...
Ela continuou a correr e era cada vez mais dificil segui-la com o olhar,
Dificil segui-la visualmente no escuro, perdia.
O ambiente normalizou e perguntei: -quem era ela?
-Esquece, é doente. Responderam-me.
Horas depois, com um corte no lábio, uns brincos enormes
E uma mão a tremer, ela tocou-me no ombro,
Olhei para trás e ela disse:






-Sim, aprovo tudo, mas insisto que ponhas o vinyl a tocar."



david.
Bateu à porta, atendendo uma brisa que o fizesse querer. Ninguém abriu. Sentou-se nos degraus do portão, dissipou um cigarro que em dois minutos desaparecera e foi-se em direcção ao prado. Correu que nem um estouvado, colidiu, tombou. No entanto, insistiu em correr como se o amanhã jamais fosse chegar. Esperava vê-la sentada no meio das relvas, num escabelo de jardim, decifrando um livro e com uma bonina no meio das laudas. Devaneou coabitar aquele ensejo, ansiou solidificá-lo. Acima de tudo, queria que ele fosse autêntico. Continuou a correr, gotejando dos olhos e mortificando-se em nacos. Sentia-se desnudo, pesaroso, encarcerado no passado. Não circulavam brisas, somente eflúvio, ardor, fumo, neblina. A certo instante, já nada conseguia enxergar, apenas vultos, silhuetas e alguns ruídos resignados. Estendeu-se ali já apto para se expirar. E expirou-se.

16.6.10

São onze e quarenta e dois, numa sexta à noite, eu estendo-me na poltrona encardida, fumo o último cigarro, desligo o televisor, tiro as cuecas, visto uma camisola conspurca, desmaiada e rota, e aferrolho os olhos. Sinto impressões nos dedos dos pés, sinto a cabeça a capitular, sinto os braços a desagregar. Acordo abruptamente, aprumo-me, vou até à escrivaninha e discorro em fenecer a epístola que te garatujo, há cerca de duas semanas. A escrivaninha já repudiou a cor da madeira, e agora é cursada por sulcos de esferográfica e fita-cola. Entrementes, nada se passou.
Concluí por desprezar, pelo menos por mais uma semana.

14.6.10

Subtilmente, vou descendo a escadaria que não vive, até à entrada da nossa casa. Ao primeiro trecho, embato. Cravo-me para acordar. Açoito-me para abrir os olhos. Nada vejo, apenas o teu minúsculo e brando marchar, pelo tecido sombrio que somos nós. Nós, culpados, tão benévolos, tão nocivos, seremos responsáveis pela nossa própria decessa. Como já te tinha dito, está cada vez mais perto, e eu gemo esmagada por dentro. Volto a atear o cigarro, a nicotina cobre o cheiro a sémen que espargiste pelo nosso aposento. Tenho medo de mim, medo daquilo que causarás em mim. Permaneces sem reacção. E eu interpelo-me se algum dia chegaste a coabitar, ou se chegaste a resfolegar. E agora a vocês, camaradas, eu me dirijo. Vocês que vivem no meio da glória, no meio da intrujice, baloiçam nas vossas próprias covas. Para vocês tenho facas e navalhas apontadas. Não se avizinhem.

13.6.10


There is one in all of us.
Endireitei-me, e do canto da sala corri contra a sebe clássica já roce e corroída pelo tempo, com nódoas da vetustade dos nossos canastros. O esmurrar da minha cabeça na parede cava nada reformou. Continuamos desbotados, liquidados, dementes, amargando as sequelas do nosso tempo. Sentado jazes tu, fitando o tecto pardo que todos os dias acarreta com o fumo dos meus cigarros e o fumo da tua erva narcótica. Cogitando melhor, o nosso tecto conseguiria relatar melhor a nossa crónica do que qualquer um de nós. Estendo-me à tua frente, e mesmo eu dilacerando por todos os meus orifícios, com os ossos a sair-me da pele, com a cútis integralmente alva, coberta de veias e de negras, não me contemplas, não me dás sequer importância, como se eu fosse uma mortalha já gasta, coberta de sémen, seiva e transpiração. Tenho asco de mim. O tempo em vez de me engraxar, encardiu-me. E tu, firme que nem um pénis no pico da erecção, permaneces sentado, e por ti o tempo não corre. As consequências não te mordem, não te trocam. Volto-me para trás, miro-nos no espelho. Acolá estou eu, incessantemente alastrada no chão deprecando clemência, espumando canície por todo lado. A ti, parece tudo imparcial.

11.6.10


No meio de qualquer quimera persigo-te. Respiro-te, porque sem te alentar eu esvaeço. Ponho-me de joelhos, sangro da boca, da vista, do nariz. Atulham-se-me as artérias. Toquei no cotovelo da faca sem me dissecar, acarretando-a à boca para a sorver. Juntando todo o meu exaurir no recanto da nossa sala, digo-te “bebe-o”. Tu assim completaste. Alcei-me, levando ao cume a minha carcoma. Perduras espraiado, escravo de mim. E eu, ainda mais pútrida do que tu, ainda mais débil, enxugada, prostrada. Dissipada em sangue oprimido, devasso, encardo, comendo a sopa dos pobres que enjeitaste ao jantar. O nosso quarto cheirava a suor, a moimento, a prostração, a pastilha, a estupefaciente, a erva-santa. Eu de joelhos encardidos e pardos, que faziam confronto com a minha ténue pele, numa quina afastada, fumava. Fumava para não me destruir a calcular os minutos, a contar os instantes que faltam para o nosso derradeiro óbito.

10.6.10


Não havia necessidade de me cravares. Mas agora que me embutiste, vou jornadear no sentido antagónico.

9.6.10










Olá Bradford, és demente, e eu adoro.







8.6.10

Como pode o árido aquilatar? Como pode o estéril saber mais? Não esgalha. Tudo o que por dentro de vós é disseminado, por fora de mim se apetrecha. Sinto-me demasiado bem. Tu que te arrematas por aí e por aqui. Enquanto eu libo o infortúnio corpóreo, tu imerges na própria peçonha. Eu giro nas vias de cima. Tu não sobes, e ficas aí, emaçado na tua opacidade. Agora não quero que cá apareças. Foste inepto, e perpetuamente o serás. Genuinamente, cessas por dentro.
Olá GENERAL DECAY, sois mesmo lindos.

tetricamente belo.

"e eu que me comovo por tudo e por nada."